“nem medo nem calor nem fome já não dá mais pra chorar nem pra rir”
eu senti tantos medos pari tantas dores desperdicei tantos sonhos amarguei tantas despedidas solucei tantas lágrimas repaginei tantas histórias revivi tantas pessoas reli tantas cartas que escrevi um dia só pra perceber que nada muda nesse mundo de meu Deus as coisas simplesmente vão e vão e fazem a gente mudar afinal as histórias são sempre as mesmas os finais são sempre os infelizes os felizes são pras estórias bobas que alguém nos contou certo dia antes de dormir e antes que o fôlego me fuja eu preciso roubar aquele pedaço de ar que descansa refestelado no seu pulmão não quero mais nada seu nem o ar que te entra sem pedir licença nem esse mesmo ar que você desperdiça depois que usa a seu bel prazer já percebeu como tudo nessa vida é pra ser usado e jogado fora confesso que me assustei quando notei isso toda a comida todo o tempo todo o sol todo o choro todas as conversas todos os abraços todos os beijos e todas as fodas também tudo serve somente pra satisfazer uma vontade um desejo um momento uma necessidade e tudo se esvai ralo a baixo antes que a gente tente salvar porque nem dá vontade de salvar mesmo só se for pra deixar esquecido num canto qualquer do porão da nossa casa que é a nossa vida acho que ela já é tão cheia de entulhos que os ares os gostos os cheiros as fotos as nossas várias faces e as alheias também tem mais é que se perder pelo caminho e agora quando olho pra trás e te vejo seguindo por outra direção que não é a minha eu quero correr eu quero gritar o seu nome eu quero sentar no chão e te puxar pelo braço com o peso do meu corpo mas o seu braço já está ocupado com outro peso que não o meu e dói sabe dói demais passar minhas noites ainda querendo tanto alguém que nada mais é do que palavra do que voz do que cheiro azedo do que anda guardado por toda uma vida do que lembrança pouca que já se foi mas esse foi me custa a ser real e eu que nunca amei nem a você nem a ninguém me vejo tentando conceituar o que já se passou por aqui pelo meu peito e sei lá se me interessa saber se foi paixão se foi desejo se foi amizade multicor se foi vontade se foi somente o prazer do sexo realmente bom sei lá que porra foi isso que eu senti com você que eu senti com seus homônimos que eu senti com tantos parônimos e com alguns anônimos que me apareceram pela frente e que não me taparam a boca antes que eu pudesse pensar se sim ou se não e foi sim sempre sim sempre aqui sem falsos pudores sem falsas histórias de pra sempre sem amanhãs sem números pra decorar sem nomes pra lembrar sem nada pra fazer sentido era só eu e o que você queria era só você e o que você queria mas aí as luzes se acenderam você viu meu rosto limpo todas as marcas que a vida me fez e teve medo de mim teve medo que eu te machucasse teve medo de me fazer ainda mais marcas você largou minha mão pulou e me deixou sozinha tentando respirar e como eu sei que tudo vai e vem sem que eu precise fazer qualquer esforço eu vou ali me embriagar de qualquer coisa enquanto você pensa enquanto você vive enquanto você trepa com minhas homônimas enquanto você aperta minhas lembranças entre os dedos e me joga no lixo do banheiro eu vou ficando por aqui procurando um outro alguém que me aperte com mais força que me ame com mais vontade que me queira com mais gosto que me foda com mais desejo que me machuque se tiver que me machucar e que não diga que sempre vai me amar porque de amor nada sei e pouco me importa saber o que quer que seja.
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